Terça-feira, Março 3, 2009
Domingo, Fevereiro 1, 2009
Comunicação anti-social
Aviso aos navegantes: este post NÃO É sobre política e NÃO É sobre a situação do “caso Freeport”. É sobre informação, e percepções transmitidas pela comunicação social.
Há muito tempo que não víamos um “caso” absorver tão grande volume de noticias e comentários, e com tamanha intensidade. Nem no apogeu de tantos processos mediáticos, como o da Casa Pia, ou o Apito Dourado, ou de Fátima Felgueiras (para citar apenas três, entre as dezenas) terá havido uma blitz semelhante.
As primeiras páginas dos jornais, capas das revistas e noticiários da televisão não falam de mais nada — a não ser a ocasional má nova sobre a crise económica e o desemprego. A partir de uma primeira notícia, que provavelmente nem deveria ter chegado ao público — uma carta rogatória enviada pela polícia britânica a pedir determinadas diligências às autoridades policiais portuguesas — a comunidade informativa começou a fazer as suas próprias investigações, debitando-as minuto a minuto nos noticiários, de onde passaram, muito naturalmente, para os comentários, colunas de opinião e debates. Antes que as pessoas pudessem ponderar sobre os pressupostos da situação, já estavam completamente baralhadas com os meandros da questão e fortemente divididas quanto às implicações e conclusões do dossier Freeport.
A primeira questão que se poderia levantar seria o envio da carta rogatória pelas vias burocráticas, como se se tratasse de uma mera diligência envolvendo cidadãos comuns. Parece estranho que as autoridades inglesas enviem semelhante bomba para Portugal sem prévias consultas diplomáticas entre governos, ou pelo menos sem um aviso do governo britânico ao português. Poderá ser atribuído, talvez, à desejável independência dos poderes (judicial e executivo) que supostamente existe nos dois países. Não nos vamos ater nisso.
A segunda questão é o facto de as autoridades inglesas terem ignorado completamente uma carta rogatória semelhante enviada pelos portugueses há cerca de quatro anos (ou três, ou cinco, tanto faz) e mandarem agora a sua, como se não houvesse precedentes. Também não vamos considerar esse assunto.
O que nos interessa são os acontecimentos desencadeados por esta última rogatória (da lá para cá).
Uma investigação é um processo lento e complicado, que envolve avanços e recuos, becos sem saída e probabilidades difíceis de validar. Muito provavelmente passa por várias mudanças de direcção, conforme as hipóteses se confirmam ou não confirmam e as suspeitas se tornam certezas ou ficam mais incertas. Acrescentando a este quadro a burocracia incontornável — autorizações judiciais para buscas, procura das pessoas a ser ouvidas, escrevinhação de relatórios, etc. — é impossível que uma investigação corra célere, ao ritmo de um filme de hora e meia. É um processo muito pouco entusiasmante, que requer paciência e dedicação, cheio de armadilhas. “O Caso Ipcress” e não “Live or let die”.
Do ponto de vista mediático, uma investigação é uma chatice.
A única maneira de a tornar interessante é, evidentemente, transformá-la no thriller que ela não pode ser. Pegar em qualquer suspeita, na hipótese mais remota, na direcção mais absurda, e colori-la com imagens intrigantes e afirmações surpreendentes.
Como os órgãos oficiais (polícias e ministério público) em princípio não revelam as suas diligências, a solução é a comunicação social fazer diligências paralelas. Ou seja, investigar ao mesmo tempo, tornando públicos todos os tais avanços e recuos, hipóteses e suspeitas, dando suspense à rotina.
Por exemplo: “Estamos aqui em frente da porta do prédio onde era a firma Neurónio Criativo… Os vizinhos não se lembram de ver ninguém neste escritório… A firma terá existido apenas durante dez meses!” Ou seja, uma tentativa falhada, a ida a um escritório que se suspeita que eventualmente terá podido ter alguma coisa a ver com uma probabilidade não confirmada, transforma-se numa peça noticiosa cheia de suspense, altamente reveladora não se sabe bem de quê — mas que só pode ser de alguma coisa suspeita.
Até mesmo as não-notícias se tornam notícias: “O que acha o Sr. Presidente deste caso?” “Não comento.” A entrevistadora vira-se para a câmara com um ar aflito: “O Sr. Presidente não quer comentar o caso…” Oh diabo! A coisa deve ser séria, se ele nem sequer quer comentar.
E mesmo na falta da não-notícia, pode-se sempre criar a notícia hipotética. A SIC, ao comentar uma reunião que terá ocorrido entre cinco envolvidos, mas não se sabe se ocorreu, fez uma infografia com uma mesa redonda e cinco bonecos sentados à volta, cada um com a sua etiqueta a dizer o seu nome.
Mas o grande furo é quando se apanha algum dos “suspeitos”, pessoas pouco habituadas a aparecer em público e que não conhecem os truques de uma boa imagem. Qualquer titubeação a uma pergunta inconveniente tem um aspecto terrível. Parecem logo culpados, ou pelo menos muito suspeitos. Se fossem inocentes não estavam ali a passar por aquilo, não é verdade?
Até mesmo quem tem larga experiência nestas armadilhas cai na esparrela. Por exemplo: o PR estava a assistir a um torneio de golfe. Lá veio a pergunta sobre o que achava da “situação” do PM. Cavaco olhou para a jornalista e disse: “Estou aqui a ver golfe… (a pensar) Não é altura para falar de assuntos… (hesitou) … de Estado.” Conclusão: o PR acha que o caso Freeport é um assunto de Estado. Ora, não foi isso que ele quis dizer. É obvio que queria dizer “assuntos políticos, fora do foro do acontecimento, que envolvem responsabilidade institucional”. Numa palavra rápida, apanhado à má fila, recorreu a “ Estado”.
Não havendo nem notícia, nem não-notícia, nem entrevista ou não-entrevista, nem sequer notícias hipotéticas, há ainda a especulação e os comentadores. Mesas redondas, debates e frentes-a-frente sobre o que pode ser, o que pode querer dizer, que atitudes os intervenientes tomaram e quais deveriam ter tomado.
Mas não é só a televisão, com a sua voragem de notícias de hora a hora, que vai por estes caminhos. A imprensa escrita também faz o que pode. Por exemplo: “A mãe de Sócrates comprou um apartamento a uma offhsore e não recorreu ao crédito!” Aqui há gato, só pode haver. Não interessa o facto de o edifício ter sido, todo ele, comercializado por uma offshore — portanto todas as pessoas compraram a essa empresa. Também não se considera a hipótese da senhora poder ter poupanças ou bens próprios e portanto não precisar de pedir emprestado.
É claro que a postura da comunicação social tem sido criticada — não só pelos visados, muito justamente, mas também por figuras públicas e até anónimos cidadãos, que se espantam com este assassinato do bom nome de uma pessoa em tempo real. Qual é a reacção? Transformar as críticas em notícias: “Tem sido muito criticado este julgamento em praça pública de pessoas que, até prova em contrário, são inocentes”. Ora toma lá.
“O senhor acha que tem havido exagero na forma como o caso está a ser noticiado?” e segue-se meia hora de exagero. Nem mais.
The show must go on!
Domingo, Janeiro 25, 2009
O meio faz a mensagem
MacLuhan esteve certo durante muitos anos, “o meio é a mensagem”. Mas a evolução vertiginosa da tecnologia só poderia ser prevista por um génio da ficção científica (Bradbury, talvez) e não por um cientista, por mais genial que fosse. A televisão mudou a nossa maneira de nos entretermos — na protecção da casa, no conforto do sofá, a ver o mundo a passar ao vivo e a cores, em tempo real. Os computadores mudaram a nossa maneira de trabalhar. Os telemóveis, o modo de comunicar. Tecnologias previsíveis na ficção ciêntifica e nas bandas desenhadas (Dick Tracy).
Parece que ninguém previu que os três se juntassem — e de repente, quase que sem darmos por isso, foi o que aconteceu. E, apesar de já ser uma realidade, ainda vamos demorar algum tempo a habituarmo-nos.
As tecnologias não trazem apenas novos gestos e novos hábitos. A maneira de pensar também muda. A rapidez, as elações e associações. Há mais coisas dentro da cabeça, mas entram e saem mais depressa. Em cinco minutos de televisão uma pessoa recebe a informação de dez livros — as cores, as formas, a sensações e as afirmações… Cinco minutos depois já não se lembra, é verdade, porque há mais informações para entrar.
Esta situação não é boa, nem má; é. Não adianta os conservadores, os renitentes, os clássicos e os bem intencionados bramarem contra os malefícios do “progresso”. O progresso, como a religião e a morte, é inexorável.
Mas o título deste post fala de literatura. O que tem a literatura a ver com tudo isto?
Tem tudo. Hoje em dia não se escreve como se escrevia, nem se lê como se lia — às vezes nem se lê, ouve-se. Tudo (enfim, quase tudo) o que se ouve na televisão é escrito. Mas os textos de televisão (ou de cinema) são diferentes. Têm de ser mais rápidos concisos. Menos ideias de cada vez, repetidas à exaustão. Maoistas, se quiserem. Os computadores permitem editar indefinidamente, mudar as palavras com um replace, matá-las com um delete, resuscitá-las com um undo.
As pessoas já não lêem como liam, porque a cabeça habituou-se a andar mais depressa, a mudar de canal constantemente, a ver dez anúncios na rua ao mesmo tempo, aos ecrãs do Exel a passar na esgalha. E também já não escrevem como escreviam. Exceptuando Miguel Sousa Tavares, já nenhum romancista de renome narra como no século XIX. As frases são mais curtas (ou com muitas vírgulas…) as elipses mais violentas, a explicações mais rápidas. Os tempos dos verbos mudam dentro do mesmo parágrafo, às vezes dentro da mesma frase. O presente, o passado e futuro convivem na mesma página. E as cabecinhas modernas acompanham facilmente.
Então e o estilo, o sabor, o vagar? Pois, perderam-se. Uma pena. Mas há-de haver sempre um ou outro MST para cultivar os estilos arcaicos com elegância e aprumo, e há-de haver sempre leitores para os clássicos.
Agora temos os textos de ficção em blogues, em e-mails, em situações curtas e rápidas. E os livros em ecrãs paper-white. Então a ficção não continuará sempre a ter os seus calhamaços e o seu prazer? Certamente; mas em minoria, para os devotados e os especialistas. A maioria escreve e lê em pequenos ecrãs — nos ecrãs dos super smartphones, cada vez maiores e mais nítidos.
Nããão… Recados, mensagens curtas, talvez. Literatura, nunca!
Ah não? Então e o Japão? Os keitai shosetsu?
Feche a boca, que eu explico já. Rapidamente. À velocidade de hoje.
No Japão, 58% dos pré-adolescentes tem telemóvel. Para os sms da praxe, claro, mas também para ler ficção!
Keitai shosetsu é isso mesmo: ficção celular. Não só por ser escrita e lida em telefones celulares mas também porque o texto é literalmente em células. Um ecrã de cada vez.
Não estamos a falar do futuro, nem a fazer ficção científica. Está no “The New Yorker”, num artigo assinado por Dana Goodyear, portanto só pode ser verdade. Para os são tomés, aqui vai a hard data: é um negócio de 82 milhões de dólares anuais. As obras de ficção celular, são depois impressas em livro, vendem dois, três milhões de cópias. Uma obra de sucesso tem 160 mil dowloads por dia.
Não se pode ignorar nem a cultura, nem a capacidade de inovar dos japoneses. Quanto a cultura, o primeiro romance que se conhece é o Genji Monogatari, escrito por Murasaki Shikibu no começo do século XI. Quanto a inovação (neste caso no mercado editorial de ficção, deixemos os Walkman para outra altura), em 2007 cinco dos 10 romances mais vendidos eram originalmente shosetsu. Enquanto a literatura em livro diminui 20% nos últimos anos, o site da editora de shosetsu Maho i-Land (Ilha Mágica) tem mil títulos listados e 3,5 milhões de visitas mensais.
Agora, perguntarão os intelectuais: e a qualidade dessa literatura?
Bem, sobre isso… Quem somos nós para avaliar?
Mas não vale a pena estar a disfarçar: são romances de faca e alguidar, cheios de incesto, vilania, sangue, suor e lágrimas, e tudo o que possa haver de mais piroso à face da literatura. Em frases telegráficas cheias de emoticons e sinais gráficos.
Será assim que se vai escrever no futuro? Não completamente, com certeza. Mas em grande parte, disso não haja dúvidas.
Mas como o cérebro também se adapta, cada vez é possivel exprimir mais em menos palavras. Os 140 toques do twitter dão para exprimir um pensamento completo. Até mesmo um sentimento complexo. E os sentimentos, esses são eternos.
Todas as tecnologias têm de os levar em conta, porque em última análise e por causa deles que elas existem.
*
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
Obama!
“Obama é mais uma manobra dos E.U.A.” afirma um grafitti em frente ao shopping das Amoreiras, rabiscado por alguém que não acredita que alguma vez possa sair algo de bom do país mais omnipresente do planeta.
Poderá ser.
Conforme a cor política e a situação geográfica, a eleição de Barack Hussein Obama para e presidência dos Estados Unidos representa coisas muito diferentes. A lista é extensa e vai desde a capacidade fantástica deste país tão recente e tão poderoso para se regenerar, até à perfídia mutante do imperialismo mais predador. As análises políticas tudo permitem e, de uma maneira ou de outra, todas terão alguma pertinência. Só o futuro poderá esclarecer o que representa esta eleição, que mudanças trará.
Mas a chegada de Obama ao lugar que todos, amigos e inimigos, consideram como o de “homem mais poderoso do mundo”, é muito mais do que isso.
Mestiço num país racista, nascido pobre numa família disfuncional e numa região sem qualquer importância política, passou a infância aos trambulhões entre países distantes, sem apoios familiares, cunhas ou quaisquer vantagens sociais. Como ele mesmo gosta de salientar, a sua história é das mais improváveis.
Obama é prova de que todas as possibilidades são possíveis para cada pessoa que nasce.
E depois, até onde se sabe (e a sua vida foi prescrutada ao milímetro) não subiu à custa do golpe, da manipulação e do chicoespertismo. Fez uma carreira honesta, com preserverança e optimismo, utilizando apenas a sua inteligência e tirando partido de um carisma extraordinário.
Obama é a prova de uma pessoa não precisa ser vil nem passar por cima dos outros para vencer na vida.
Por isso é que a eleição de Obama é tão positiva. Faz-nos sentir melhores como espécie e dá-nos mais esperança nas nossas possibilidades. Num mundo à deriva, cínico e egoísta, suicida e assassino, as nossas melhores qualidades ainda conseguem vir à tona. Hoje, todos nos sentimos melhores.
O resto… o resto é política.
*
Sábado, Janeiro 3, 2009
E o futuro da escrita é…
Há muitos anos, na década de 80, li no “The New Yorker” um artigo de opinião sobre o futuro da informação. Não me lembro do nome do autor, lembro-me muito bem do conteúdo, porque me impressionou bastante — na altura seria uma elucubração ousada, e fiquei completamente siderado com aquilo — não por discordar ou concordar, mas porque francamente ainda não tinha percebido o impacto da “revolução digital” que estava a decorrer.
O autor começava por dizer que antes da existência dos livros impressos (Gutenberg, 1439) as massas recebiam informação através das catedrais. Essas construções extraordinárias, magnificamente decoradas, continham pinturas, estatuária, relevos e vitrais que contavam vividamente tudo o que as pessoas não cultas precisavam de saber — basicamente que deviam viver segundo certos padrões e à imagem dos santos e heróis que as tinham precedido, senão iriam para o inferno. Os livros existiam, mas eram caríssimos de reproduzir, portanto estavam limitados aos senhores das catedrais.
Quando a tipografia facilitou e embarateceu a reprodução e o papel se tornou facilmente disponível, os livros espalharam-se por toda a parte e as massas começaram, muito lentamente, a aprender a ler. Os poderes constituídos perceberam imediatamente o perigo e tentaram controlá-los, impondo castigos formidáveis (nesta e na outra vida) a quem se atrevesse a escrever e publicar obras “impróprias” — basicamente tudo o que pudesse em questão os cânones oficiais.
Mas o que aconteceu é que os livros tinham características que os tornavam imbatíveis em relação às catedrais. Eram portáteis e leves, baratos, discretos e continham muito mais informação — informação codificada de uma maneira mais eficiente. Por mais perseguidos ou desprezados que fossem, os livros representavam um tal avanço na difusão do conhecimento que nada os podia parar.
Segundo o autor, na nossa época há uma resistência semelhante em relação aos meios informáticos. As razões não serão as mesmas (isto é, não se trata de controlar a informação) mas a transferência é inexorável; o novo meio de difusão do conhecimento é mais barato, mais rápido e mais eficiente e portanto torna-se inevitável que a informação digital, em todas as suas formas, ultrapasse e suplante a informação impressa.
Era esta a tese.
Há vinte anos que li isto, e desde então tenho assistido, e participado, nessa mudança de suporte para a informação. E também tenho visto o desprezo, o medo e o conservadorismo com que as pessoas cultas vêm esta evolução. Perante a revolução, há a reacção — e desta vez da parte de quem mais deveria favorecê-la, dos grupos supostamente mais progressistas.
Compreende-se.
Primeiro, na luta contra a ignorância e o obscurantismo, os livros tiveram um papel essencial.
Tornaram-se não só os portadores do conhecimento, mas também o seu símbolo.
No “1984” Orwell fala-nos de como os livros eram manipulados para se adaptar à realidade oficial. Em “Fahrenheit 451” Bradury mostra-nos uma sociedade em que os livros eram queimados e as pessoas decoravam-nos, para que não perecessem. Cada pessoa tornava-se um livro vivo.
Infelizmente não é preciso recorrer à ficção para saber como é; a maioria da população mundial, neste primeiro dia do ano da graça de 2001, não tem acesso a livros, ou não os saberia ler, ou só pode ler o que as “autoridades” quiserem.
Segundo, os livros são objectos com uma beleza própria, não só estética, mas também técnica.
O prazer de manusear um livro, de o abrir e fechar, ler devagarinho, saborear a nosso belo prazer… O conforto da leitura, que pode ser feita em todas as situações imagináveis e em todas as posições físicas possíveis… A posse dos livros, a estante cheia de tanto conhecimento, tanto conforto, tanto prazer…
Até aqui, os defensores incondicionais dos livros têm razão.
Mas outras razões há que não fazem sentido.
1) Os livros contém informações que se perderiam com o seu desaparecimento. É claro que isto não faz sentido. Primeiro, os livros não vão desaparecer, pelo menos enquanto for fisicamente possível conservá-los. E hão-de fazer-se sempre livros (não se fazem ainda catedrais?). Segundo, toda a informação dos livros está digitalizada — aliás, graças a isso, há um acesso ao conteúdo dos livros que nunca seria possível só por eles.
2) Os livros são estética e funcionalmente insubstituíveis. O prazer de manusear um livro, de o ler ao nosso ritmo… A biblioteca com o seu colorido, o seu conforto… É verdade. Mas de qualquer maneira, há que admiti-lo, a estética nunca foi a determinante da sobrevivência de um medium — lembrem-se das maravilhosas capas dos LPs de vinil, ou das incríveis fotografias analógicas de nitrato de prata sobre papel… Aliá, continuarão a existir bibliotecas e livros. Continuarão a fazer-se livros — como ainda se fazem pianos de cauda, colheres de pau e filigrana: por prazer, por arte.
3) Acabando os livros, acaba a escrita e a leitura. Este é o argumento mais estúpido, mas o mais prevalecente hoje em dia. O facto é que, graças à difusão informática, escreve-se mais do que se escreveu e lê-se mais do que se leu, em qualquer época da História. Nunca houve tanta gente a ler e a escrever como agora — e não esqueçamos de que praticamente tudo o que aparece na televisão é escrito.
Posto isto, há que acrescentar as desvantagens da informação impressa. Gasta papel, que gasta árvores, que fazem falta na natureza. O número de árvores destruídas para que as pessoas leiam todos os dias as elucubrações dos jornais ou insistentemente os disparates do Paulo Coelho é arrasador. Milhares de milhões. O papel é impresso em máquinas que gastam toneladas de energia. Distribui-lo é lento, complicado e também gasta toneladas de energia. (Sei de vários casos concretos de jornais vespertinos que acabaram pela impossibilidade de os distribuir atempadamente).Guardá-lo é difícil, caro, perigoso até. Os químicos usados para branquear o papel e depois pintá-lo são aterradores, corrosivos, maus.
O papel é uma catástrofe ecológica.
Depois, os livros são pesados e volumosos; um livro pode ser portátil, mas uma biblioteca é um pesadelo logístico. E o custo?
Podemos acrescentar, até, que são difíceis de esconder, em caso de perigo.
Não preciso de dissertar sobre os modos como a informação digital resolve todos estes problemas de maneira mais racional e mais barata.
É verdade que ainda falta massificar algumas tecnologias para que o digital substitua substancialmente o impresso. Mas elas já existem. (Estou a pensar concretamente nos ecrãs flexíveis.)
Este ano, pela primeira vez, o e-book reader da Amazon esgotou. (É feioso e imperfeito, mas esperem até aparecer um iReader da Apple!) Mesmo o leitor “clássico” mais ferrenho não pode deixar de apreciar o que é ter uma biblioteca inteira (enciclopédias e dicionários incluídos) dentro de um único livro. Anotável, indexável, procurável!
Isto para não falar na grande quantidade de livros, livrinhos e livretos disponíveis on-line, e portanto acessíveis em qualquer sítio, de graça, ou muito baratos. Agora, quem escreve pode ser lido em qualquer parte do mundo, e quem lê pode ir buscar o seu prazer do outro lado do planeta.
Pois é, os livros provavelmente vão acabar. E os jornais também. Mas a escrita está mais viva do que nunca. E a crescer.
(Quem não acredita no futuro, que veja isto: http://vimeo.com/2812014)
Quarta-feira, Dezembro 17, 2008
Crónica dos milagres do Reino
O chamado romance histórico é o que está a dar. Mas nem todos são apócrifos. Ficções há que se baseiam em documentos históricos, como é o caso desta crónica.
Conta-se que no tempo em que os animais falavam e os homens acreditavam no intangível, andava pela terra um homem recto cujo nome era Pero Lopes, mas que todos conheciam como o Santinho. A sua vida e obra até hoje são motivos de espanto.
Nesses tempos remotos, em que a separação dos pelouros ainda não tinha sido estabelecida pela Idade das Luzes, havia uma certa confusão de atribuições entre os senhores da terra. Santinho, sendo encarregado de tomar conta das Artes, acabou por se meter num imbróglio que tinha mais a ver com construcção civil e clubismo, conhecido como “o caso da pala do Sporting” (as crónicas não são muito claras quanto aos meandros desta situação). Foi, por assim dizer, o acontecimento mais importante desse período cultural. Ficou conhecido como o “milagre da das elevações”; nem a pala caiu, nem Santinho.
Na mesma época um dos seus acoólitos teve o atrevimento de colocar no Index dos livros probidos a santa obra de um profeta muito venerado. Apanhado no escândalo, Santinho decidiu com justiça: desterrou o apaniguado e criou um grande acontecimento nacional, os “Estados Gerais da Imaginação” para desviar os espíritos para assuntos mais pertinentes. Ao que parece nunca chegaram a realizar-se, talvez por falta de matéria-prima, mas Santinho, sempre parcimonioso, retirou-se da vida pública e foi fazer um cruzeiro pelo Mediterrâneo.
Seguiu-se um período agitado, em que Santinho aparece exclusivamente nas crónicas sociais, por vezes ataviado num estilo bárbaro, o que lhe valeu as críticas dos doutores do reino. Não achavam bem ver um homem de fé com uma bandana na cabeça, já um bocado bebido, agarrado a mulheres de vida fácil — quer dizer, mulheres que se preocupavam mais em laurear a pevide do que cuidar do lar e dos filhos, ou que cuidavam do lar e dos filhos vestidas à última moda, todas pintadas. Mas hoje em dia crê-se que grande parte dessas críticas eram motivadas pela inveja.
Foi então que Santinho fez o seu primeiro come-back. Espectacular, diga-se de passagem, apesar de relativamente modesto para as suas qualidades. Candidatou-se a edil de A-Ver-a-Praia. E ganhou!
Para um homem com o quinto ano de praia isso poderia não parecer estranho, mas os textos são unânimes em dizer que excedeu as espectativas. Ficou então a perceber-se que os cruzeiros mediterrânicos e as peregrinações nocturnas, por vezes até ao nascer do dia, não tinham sido actividades mundanas, mas sim um investimento. As excelentes relações assim conseguidas colocaram a vila litoral no mapa das férias; era uma ror de gente a passar temporadas em A-Ver-a-Praia — e, evidentemente, a gastar nas estalagens, casas de pasto e tabernas. Documentos tardios mostram que toda a agitação custou uma fortuna aos comerciantes, já que essas pessoas consumiam bem e nada pagavam. Ficou conhecido como o “milagre das bocas-livres”. Além disso, o conjunto de obras sumptuárias e o despesismo teriam deixado A-Ver-a-Praia endividada por várias gerações. Mais outro milagre, o da multiplicação das dívidas. Contudo são textos posteriores, talvez espúrios.
Mas não interessa; impoluto, cheio de energia, Santinho foi pregar para a capital do reino. Com tanto sucesso que também ali se fez eleger edil, vencendo os rivais Agnosticistas Soaristas — uma seita religiosa que imperou nestas partes durante décadas e finalmente foi eliminada da ribalta por vários profetas, inclusive dentro da própria seita.
Dotado do maior orçamento municipal do reino, Santinho não olhou a despesas: tinha uma cozinha bem fornida, carruagens topo de gama, palácios redecorados — tudo a que um homem bom tem direito, sobretudo quando faz bem a tanta gente. A obra mais importante deste período é a famosa Gruta do Marquês; embora nunca fosse terminada, até hoje alivia grandemente a população do congestionamentos na entrada da urbe. Diz-se que é um autêntico milagre que a gruta não caia, uma vez que está a menos de um metro da Gruta da Plebe.
Mas o melhor ainda estava para vir. O douto Patriarca Durão, chanceler do reino, recebeu comanda para ir para a sede do Papado e deixou a chancelaria nas mãos de Santinho.
Chanceler providencial, maravilhosas ideias teve a nossa luminária — inclusive espalhar as secretarias por todas as cidades do reino, coisa nunca vista em nenhuma nação, em época alguma da História. Outras congeminações sairam daquela cabecinha, mas como nenhuma se concretizou, não existem provas documentais.
Contudo, os inimigos conspiravam. Gente soez imiscuiu-se na Corte, a conspirar e mal-dizer. Finalmente o Rei, um homem pusilâmine e indeciso, convocou eleições. O povo, mal-agradecido e impaciente, deu a Santinho a mais estrondosa derrota que os seus já tinham sofrido desde a implantação da Magna Carta.
Todos os julgavam arrumado. Ledo engano.
Numa movimentação que muitos consideram um autêntico milagre, o nosso justo fez o segundo come-back: voltou às Cortes, provocou grande comoção e apresentou-se de novo para o cargo do qual tinha sido tão vilmentente escorraçado.
Mas, por mais extraordinários que os milagres fossem, o mais extraordinário relato refere-se à eternidade de Santinho. A sua morte não está registada em parte alguma. Diz-se que resuscitava a pedido; também se diz que era indestrutível. Por mais que o vilipendiassem, escarnecessem e denegrissem, voltava sempre, como um sempre-em-pé (passe o sacrilégio). O facto é que nunca desapareceu. Nem dos nossos bolsos, nem da nossa frente.
Sábado, Dezembro 13, 2008
o futuro do jornalismo?
Quando trabalhei na Edimpresa (que na altura se chamava Abril/Controljornal) houve uma época em que o Director-Geral era Miguel Ribeiro e Silva, um gestor muito inteligente e excêntrico — um “elefante”, no vocabulário zen-empresarial do livro de Stanley Bing. Fez um trabalho extraordinário; em poucos anos, a editora, que estava falida e à deriva, enterrada numa cave onde se ouviam os esgotos que nos passavam por cima da cabeça (entre outras situações, mais graves para o trabalho) passou a ser uma empresa organizada, computorizada, bem instalada e a produzir uma série de revistas com consistência. Logo a seguir entrou num período de expansão com novos títulos, alguns muito bem sucedidos — e outros menos, mas isso quer dizer que se apostava em projectos; havia uma postura dinâmica, entusiasmante.
Mas não é a estória da Edimpresa que quero contar. O que vem para o caso é que o Miguel Ribeiro e Silva detestava jornalistas, que achava pouco confiáveis (como funcionários), desequilibrados e excessivamente bem pagos para o que faziam.
O sonho dele era fazer revistas sem jornalistas.
Tentou várias vezes, de várias maneiras (que não vou contar, embora desse para um livro). Na altura achava-o um guru empresarial, mas agora vejo que foi um precursor no mundo rarefeito e frenético da comunicação social.
Que já se fazem revistas, jornais, e sobretudo televisão informativa, sem jornalistas, toda a gente sabe. Basta ler e ver.
Mas esse é o presente, pelo menos em Portugal.
Estou a falar do futuro — duma época inimaginável até há pouco, em que o jornalismo será outsourced a nível global. Se o Ribeiro e Silva ainda estivesse no ramo (não faço ideia por onde anda) ficaria encantado.
Quem conta esta estória é Mareen Dowd a colunista do New York Times. Segundo ela (e não há nenhuma razão neste mundo para duvidar de Maureen Dowd) existe uma publicação on-line em Passadena que é completamente feita por jornalistas indianos — pessoas que nunca puseram os pés nos Estados Unidos, e muito menos em Passadena, que é o tema da publicação.
James Macpherson, o director do diário, acha (e tem razão para achar) que “a imprensa norte-americana está numa situação semelhante à dos fabricantes de automóveis, só que não há ninguém para a bail out.”
Vai daí colocou um anúncio no Craiglist a pedir repórteres indianos. Obteve muitas respostas. Despediu os sete jornalistas que trabalhavam no jornal (e que ganhavam entre 600 e 800 dólares por semana) e substituiu-os por seis indianos que recebem 7,50 dólares por cada mil palavras. (Este texto tem 600 palavras).
Como é que os indianos se desenrascam? Dowd telefonou-lhes. Um deles, uma senhora chamada G Sreejayanthi, disse que não se considerava uma jornalista porque tinha um emprego diurno e fazia aquilo nas horas vagas. Acrescentou, com toda a candura, que as coisas nem sempre saiam como deve de ser; uma vez teve de falar do Rose Bowl (“Taça de Rosas”) e pensou que fosse uma actividade sobre comida; só mais tarde é que percebeu que se tratava de um evento desportivo. (Trata-se do campeonato nacional de rugby entre universidades, caso alguém se queira candidatar a jornalista nos Estados Unidos.)
Macpherson está finalmente a fazer dinheiro com o seu jornal e, ao que parece, os leitores não se queixam. Aliás o dono de uma cadeia de jornais locais disse a Dowd que achava os resultados muito aceitáveis e estava a pensar em experimentar nas suas publicações.
Pensando bem, talvez não tenha sido uma boa ideia levantar esta lebre. Com certeza que haverá em Goa indianos que escrevam em português. Apesar dos jornalistas portugueses ganharem os tais 600 a 800 dólares por mês, mesmo assim a economia seria notável. E depois, passando os olhos pelos nossos jornais, tenho a certeza que na maioria dos casos ninguém daria pela diferença.
Segunda-feira, Dezembro 1, 2008
Toca a saír do Afeganistão!
Obama já disse que a sua prioridade é o Afeganistão e não o Iraque. É a leitura “geo-politicamente correcta” que os europeus (e grande parte da intelitgenzia norte-americana, é justo que se diga) fazem há muito tempo e que os levou a participar na invasão do primeiro e torcer o nariz à do segundo. A ocupação do Afeganistão justificava-se estrategicamente porque albergava e treinava os radicais islâmicos, e moralmente porque os tipos eram uns bárbaros que dinamitavam monumentos ancestrais e apedrejavam as mulheres até à morte.
Já a invasão do Iraque sempre pareceu, mesmo ao homem de rua europeu, uma birra infantil. (Até hoje nunca se percebeu muito bem as verdadeiras razões da obsessão norte-americana. Havia as elocubrações geo-estratégicas de Wolfenson e Rumsfeld, é verdade, mas não chega. Talvez fossem os problemas edipianos de Bush filho em relação a Bush pai, ou a necessidade de Cheney arranjar negócios para os seus patrocinadores e amigalhaços.)
Mas, se o envolvimento no Iraque tem um fim à vista (a saída das tropas norte-americanas algures em 2010) e as consequências que sempre se previram (multiplicação exponencial dos sentimentos anti-ocidentais no mundo árabe e aumento da área de influência do Irão) a “questão” do Afeganistão parece interminável. E não é preciso fazer futurismo para chegar a cenários que mostram, invariavelmente, uma rejeição completa da população pelos “valores ocidentais” e um desgaste cada vez maior e, em última análise, insuportável, para as potências ocupantes. Não, não é preciso fazer futurismo; antes pelo contrário, basta fazer passadismo, isto é, ler a História da região.
Em termos ego-ocidentais, ou seja, lendo a História do ponto de vista da Europa (que narra a “descoberta” das Américas e do Japão, e, em geral, avalia o desenvolvimento das civilizações segundo as etapas do desenvolvimento europeu), a região do Afeganistão passa a ter existência no último quartel do século XIX – quando os ingleses, “subindo” na ocupação da Índia, deram com os russos, que “desciam” na ocupação do Cáucaso.
Nessa época ficou a saber-se vagamente que o Afeganistão já teria sido o centro do mundo árabe. Com dirigentes fortes através dos séculos, invasores mais fortes ainda e insubordinação permanente das tribos. A capital sempre foi Kandahar ou Kabul, dependendo dos senhores.
Antes, já Alexandre tinha invadido,em 330-323 A.C., mas não conseguiu dominar a agitação e as revoltas sangrentas. O islão chegou lá em 652; sob Ahmad Shah 1747-73 foi o maior império muçulmano do século XVIII. Guerras com os persas, os sihks, com toda a gente à volta, sem ninguém conseguir dominar tudo por muito tempo.
Em 1859 os ingleses fecham-lhe o acesso ao mar. Uma década depois os russos atacam a norte mas não conseguem ocupar e em 1873 estabelecem a fronteira que ainda hoje perdura. Entre 1878 e 1880 os ingleses tentam controlar o país mas também eles falham. O máximo que conseguem é um tratado com as tribos em que ficam encarregados das relações exteriores, assunto que evidentemente não tinha qualquer interesse para os senhores locais.
(Sobre esta época vale a pena ler o livro de Rudyard Kipling “The Man Who Would Be King”, ou então ver a adaptação que John Huston fez em 1975, com Sean Connery e Michael Cane. As lutas tribais, a mitologia à volta de Alexandre o Grande, a venalidade e ingovernabilidade das tribos, está tudo lá.)
Em 1907 Russia e Inglaterra assinam a convenção de S. Petesburgo, consagrando a influencia inglesa. Em 1921 mais uma revolta faz com que a Inglaterra perca a pouca influência que pudesse ter — incluindo as tais “relações exteriores. Em 1930 Nadir Khan une o país, mas a criação do Paquistão, em 1947, rouba muitas terras afegãs. (Estão a ver como os talibã se “refugiam” no Paquistão? Para as tribos, a região é afegã. As fronteiras traçadas pelos ocidentais, as que estão nos mapas, só existem nos mapas, como aconteceu com África).
Com o final da II Grande Guerra, os ingleses afastam-se e os russos aproveitam para se aproximar. (A situação estratégica do século XIX passa para o século XX e chega ao XXI, como se vê.)
As primeiras eleições de que há memória ocorrem em 1969; em 1973 um general derruba o rei e implanta a república que cinco anos depois levaria os comunistas de Najibullah ao poder. Mas o comunismo é um corpo tão estranho como a democracia, nesta sociedade tribal-medieval. Não tarda que as reformas incomodem toda a gente (as mulheres a irem à escola, onde é que já viu?) e os russo perdem a paciência e invadem em 1979. Mas mesmo a brutalidade russa e o completo desrespeito pelos valores humanos (bombas em forma de brinquedos para as crianças, por exemplo) não conseguem debelar aquela malta. Os norte-americanos, encantados com a ideia de darem ao russos o seu próprio Vietnam, ajudam os mujaheeden. A ajuda, olha que interessante, é canalizada pelos serviços secretos paquistaneses…
Dez anos depois os russos saiem com o rabo entre as pernas e é só uma questão de tempo até a república cair e Najibulhah ser executado. A partir de 1989 o país volta à situação que todos preferem e os faz felizes: senhores da guerra, lutas intermináveis entre as tribos, corrupção (se este conceito faz sentido no contexto daquela cultura). Pode perguntar-se: mas se eles andam sempre na guerra, vivem de quê? Ora bem, o Afeganistão, é bom lembrar, tem o melhor ópio do mundo; ora o ópio vale muito mais do que o petróleo e, que se saiba, não tem efeitos nocivos no aquecimento global…
Os talibã chegam ao poder em 94. Mas só entraram no radar do Ocidente em 2001; em Março fizeram explodir os budas de Bamyan, e em Setembro o World Trade Center.
O resto é actualidade, não vale a pena contar.
Agora, pode perguntar-se: ao ler a História da região, porque é que se caiu no mesmo erro — tentar ocupar, modernizar e impingir valores ocidentais a uma sociedade intrínsicamente ingovernável, culturalmente medieval e moralmente islâmica? Os próprios senhores locais, os ingleses e os russos nunca conseguiram unificar e coordenar o país, mesmo utilizando a brutalidade mais bárbara e a injustiça mais impiedosa; o tráfego de ópio, como todos os tráfegos, sobrevive a qualquer regime ou estado de sítio; e o Afeganistão, desde que não exporte terrorismo, não tem qualquer influência no planeta, nem interesse para os jogos de poder regionais ou mundiais. Bastava dizer aos talibã, ou aos senhores que estiverem no poder na altura: “se vocês treinarem terroristas, mandamos os bombardeiros baseados na Flórida arrazar tudo o que se mexer, acima ou abaixo do solo”. Mesmo os afegãos, que disparam as kalashnikovs de pé a andar de frente para o inimigo, respeitam aquelas bombas múltiplas que incineram tudo numa área de vários quilómetros quadrados. Em última análise, desde que os deixem matar-se uns aos outros à vontade e manter as mulheres na servidão, também se estão nas tintas para o que se passa fora da sua restrita área de influência. Os iranianos, que os detestam e fuzilam sumariamente os traficantes, que os contenham a Oeste; os paquistaneses, que os receiam ou se identificam com eles, que os aturem a Sul.
Nós europeus, ou “ocidentais”, não podemos pretender que toda a gente pense como nós, nem ter pretensões de impor os nossos valores a quem não os aprecia. Custa-nos ver aquela “barbárie”? É só não mandar lá a BBC e deixar de ver a Al Jazeera.
Segunda-feira, Novembro 24, 2008
Enquanto isso na blogosfera…
Lemos esta estória fantástica no New York Times.
Fantástica porque desafia a imaginação (apesar de ser real) e também porque demonstra a anarquia divertida e perigosa que reina no planeta internético — um planeta paralelo, que um dia pode ser a única referência desta época.
(Já pensaram, se numa civilização futura só tiverem os blogues para reconstituir a nossa História? No fundo não será muito diferente de nós fazermos a História de civilizações passadas a partir de pedras tumulares, ou de restos de colunas.)
Mas então, vamos aos factos.
A certa altura da campanha eleitoral norte-americana o canal Fox News, republicano e conservador, saiu com uma péssima notícia sobre Sara Palin: parece que numa conversa com alguém ela teria mostrado que julgava que a África era um país e não um continente!
No dia seguinte o canal MSNBC informou que a estória tinha partido de Martin Eisenstadt, conselheiro político de McCain. Eisenstadt foi dado também com sócio sénior do Harding Institute for Freedom and Democracy.
A estória entrou para o extenso anedotário de Palin.
Ora, acontece que Eisenstadt tem um blogue, mas não existe. E o Harding Institute também não — é apenas um site na Internet.
Trata-se de uma personagem inventada por dois cineastas,
Eitan Gorlin e Dan Mirvish. Foi criada para um programa de TV que nunca viu a luz dos ecrãs mas que acabou, como se podia prever, no YouTube. Quem aparece como Eisenstadt é Gorlin
Contudo o duo jura que não inventou a estória de Palin; repetiram apenas uma informação de “fonte segura”.
A brincadeira começou há dois anos, com um vídeo em que Eisenstadt aparece dizer disparates em louvor de Rudolph Giuliani (o ex-presidente da Câmara de Nova York que foi candidato às primárias republicanas). Esse vídeo seria o piloto da tal série de TV; o facto é que teve milhares de visionamentos .
Quando Giuliani saiu das presidenciais, os dois resolveram transformar Martin num comentador de TV Cabo de direita
A seguir Eisenstadt tornou-se conselheiro de McCain e passou a ter o seu blogue com comentários confidenciais, imediatamente usados como referência por outros bloguers.
Fizeram ainda um documentário sobre Eisenstadt, supostamente para a BBC, mas que só apareceu no You Tube. Em Junho apareceu uma entrevista com Eisenstadt Bagdade a propor a construção de um casino na Green Zone da capial iraquiana
No final do periodo eleitoral norte-americano, Eisenstadt colocou no blogue que Joe, o canalizador citado pelos dois candidatos presidenciais, era parente próximo de Charles Keating, administrador de um dos bancos de investimento que faliram logo ao princípio da crise. Era mentira, mas a blogosfera espalhou a notícia.
No entanto nem toda a gente se teria deixado enganar; também anda na blogosfera um tal William Wolfrum, que se dedica a investigar este tipo de brincadeiras, e que desde o princípio anda a denunciar a brincadeira no seu blogue.
No entanto, ninguém pode afirmar que Wolfrum seja verdadeiro, ou apenas mais uma personagem inventada por alguém, como muito bem conclui o New York Times…
Moral da estória: nenhuma, evidentemente. Mas a verdade é que se Sara Palin não disse aquilo, poderia muito bem ter dito. Até hoje a Fox não desmentiu.
Sábado, Outubro 11, 2008
Câmara esclarecida
Finalmente, ao fim de anos de apresentações ridículas e escolhas surrealistas indigentes, o canal 2 lá se sai com um programa cultural bem feito e informativo — talvez um pouco pedante, mas isso é inevitável nas demonstrações dos intelectuais, aqui ou na China.
Já devia ter falado na “Câmara Clara” há mais tempo, mas entretanto a “situação”, a “crise”, e o noticiário avassalador (para não falar nos estados de alma”) têm-me mantido a cabecinha numa roda viva.
Então, a Câmara Clara.
Clara é a Paula Moura Pinheiro, pois claro, com aquele cabelo brilhante preto, olhos ora lânguidos ora sibilinos e um critério quanto aos convidados que é sempre interessante. Para não falar numa agenda bastante completa, listas de livros que valem a pena e uma actualidade dos temas sempre atenta ao que acontece.
Desda vez o programa era sobre o Modernismo, a propósito de uma série de eventos relacionados com Fernando Pessoa. Os convidados eram Rui-Mário Gonçalves, crítico hoje-em-dia institucional, e Fernando Cabral Martins, especialista na matéria. (Acabou de lançar “O Modernismo em Mário de Sá Carneiro” e vai publicar um “Dicionário de Pessoa e do Modernismo”.)
Fiquei a saber muita coisa que não sabia, sobretudo no campo da trívia modernista.
Mas também tomei conhecimento de uma notícia inquietante: o espólio de Fernando Pessoa que ainda estava com a família vai a leilão no próximo dia 13 de Novembro. Não é muita coisa, se compararmos com o que já está na posse do Estado (e portanto de todos nós) mas tem o famoso dossier Allistair Crowley, publicações com dedicatórias, fotos e outra memorabília interessante. A questão que se põe, já estão a ver, é se o espólio vai ficar connosco ou viajará para outro país, ou ainda se se dispersa ou não (está dividido em lotes). Dado o interesse universal em Fernando Pessoa (o “Livro do Desassossego já tem três edições na China, fiquei também a saber) espera-se que as licitações subam a valores “inéditos em Portugal”. O Estado tem direito de preferência — mas o Estado não se pronunciou. Este suspense pode ser para fazer um favor aos herdeiros (se o Estado optasse, o valor não seria tão alto como no leilão), ou pode ser porque o Ministro ainda não conseguiu convencer o Primeiro de que vale a pena gastar este dinheirinho. Aguardamos ansiosamente. E entretanto lá vamos vivendo no Desassossego — do Pessoa e de toda a gente.